quinta-feira, 21 de abril de 2011

: Sobre Música e o Imponderável

Incrível como nenhum de nós tem sequer noção de como as músicas influenciam nossas vidas ou nossss vidas são influenciadas pelas canções. Notas músicais em conjunção têm vida própria assim como cada ano - estação pós estação. A vida é uma sinfonia cujas partituras são diariamente escritas em efêmeras bolhas de sabão.

É preciso



[...]
Naturalmente conviver
com
o imponderável
o sobrenatural.
Andar com destreza
sensibilidade
e equilíbrio
sem igual
Na bamba corda
que
separa
o mundo
racional
do
passional.

Observar o mar, mistura perfeita de água e sal,
A contracenar com um pôr-do-sol: fenomenal.
Nutrir o sonho com um pé no real: Essencial.

*Fragmentos do Soneto Essencial
( fora de formatação)



Andarilho das Sombras - Copyright©2008.
Música: Primavera no Coração - Nenhum de Nós

quinta-feira, 14 de abril de 2011

:Sobre as Cores do Amanhã

Há momentos nos quais a vida pede um pouco de cor. Quando tudo parece opaco, cinzento, sem direção olhe ao redor e tente enxergar as matizes a se manifestar nas mais sutis possibilidades. Seja no reflexo aquoso de uma poça d'água ou no verde-esperança de um louva-deus a planar sob a quase transparente orientação de uma branca luminária a focalizar um apertado amplexo. Os tons do viver se multiplicam em lindas cores aos olhos da imaginação. Eis que surge imponente um lápis de cor entre o piscar dos olhos e seu próprio lapso. Amanhã será um outro dia e a manhã com suas cores vai ser um belo recomeço para curar os tropeços os quais se apresentaram, mas não intimidaram.

Lápis de Cor

Preparar... apontar... rabiscar.

Ele sai do seu estado de inércia
pra pintar o sete, fazer peripécia,
displicentemente desliza sobre a
crua e lisa superfície do papel...

Desgasta sua ponta anil,
de forma brusca ou sutil
eterniza um leve assobio
no ir e vir da levada brisa.

Tons pastéis materializam
num degrade de marrons
o noturno mistério oculto
em Saturno e seus anéis.

A folha outrora nua se veste
gradualmente com a textura
contemporânea e abstrata
da moderna e densa gravura.

Frescos corantes se unem em concentrada
matiz que colore os afrescos com aparente
cera de giz... pra gerar um efeito gris
mesclam-se várias nuanças,
sejam elas intensas ou mansas,
depende da intenção.
Amarelo caramelo sobreposto
à violeta criada em proveta,
verde verdume verdejante
empresta todo seu lume
pra clarear o bom gosto
do laranja que se arranja.
E assim funciona
o cromático engenho da criação:
a intuição o lápis impulsiona
na direção indicada pelas pás
do moinho da imaginação
(...)
Lá está ele, o desenho
(...)
Em sua eterna, livre concepção.
Andarilho das Sombras - Copyright©1998.
Música: A Dança da Cor - Oswaldo Montenegro

sábado, 2 de abril de 2011

: Sobre Exílios e Canções

Houve um tempo no qual a liberdade não era vista e tratada apenas como algo banal em nossas vidas. Nos anos de chumbo, o céu não era a única fronteira a se nublar diariamente. Homens sendo lobos dos próprios homens em uma ciranda de poder e manipulação. Quem sobrevive a tamanhas torturas, muito mais que físico-corporais sobreviveria também às atrocidades psicológicas tão fortes nas relações humanas? Esta é uma entre tantas outras perguntas a não silenciar. Em um período tão efervescente a poesia tinha voz bem mais nítida e clara. Trazia em suas linhas e entrelinhas uma tentativa de resgatar os valores éticos e morais tão cruelmente dilacerados. Imagino quão difícil era para poetas como Thiago de Mello perceberem-se obrigados a se exilar. Não me refiro somente ao exílio político, mas também à clausura imposta a alma por circunstâncias tão devastadoras. Há um revigorante poema de nome Os Estatutos do Homem, o qual nos convida a uma importante reflexão: até quando nós mesmos vamos nos submeter a tão avassaladores exílios de pensamento ? Uma sugestão: não se tranque em claustros cuja existência possa impedi-lo de exercer sua maior conquista – a Liberdade. Com uma certeza: O show tem que continuar, como cantam João Bosco e Zizi Possi a letra de Aldir Blanc – O Bêbado e o Equilibrista. (Cique e ouça aqui: youtube).

Com vocês, Thiago de Mello

Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.


Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Fonte: Jornal da Poesia
Música para leitura - ouça: Chevaliers de sangreal

quarta-feira, 23 de março de 2011

: Sobre a Inexorabilidade dos Ciclos

O outono chegou. Estação da renovação. Momento de reinventar o óbvio. Folhas secas a documentar em si mesmas com seus DNA's a história muda, mas nem por isso, imperceptível de vidas as quais perecem ante o implacável Tempo e seus ciclos. Assim é a Existência
:emaranhado de dias convertidos em meses e anos a compor a história de cada um com a bela inexorabilidade dos coloridos e enebriantes poentes para pobres mortais como eu. O pôr-do-sol tem idioma próprio o qual se acentua ainda mais nas tardes outonais. Nas secas nervuras das velhas folhas a cobrir o chão do Viver.

Outono

Eis o tempo das árvores nuas.

Das secas folhas.
Época de desfrutar o novo sabor
das maduras e sábias feitas escolhas.

Soltar pelos parques ante o poente
o sabão moldado em leves bolhas.

Vamos, siga a direção do livre frio vento.
Feche os olhos e aspire para os pulmões
o puro ar em movimento.

Veja
quão
lindo
e
lento
é o entardecer
o qual se põe,
se expõe a ti,

incrédulo espectador
a buscar explicações
para as infinitas
sem-razões
que o fizeram
presenciar


os tons sobre tons

das voláteis,
latentes pinceladas
de éter
por demais sobrenaturais,
emolduradas em tardes assim
:feitas de sono,
típica e naturalmente outonais.

Andarilho das Sombras - Copyright©2009.
Música: Divertissement - St Preux
Cique aqui: youtube para ouvir

sábado, 12 de março de 2011

:Sobre Utopia - Matá-la ou Nutrí-la ?

Desde que me entendo por gente ouço a seguinte frase: "Nossa, Brasília me assusta! Terra de ratos e ladrões." Pois bem, mais ainda me assusta e preocupa a postura de alguns em generalizar pessoas, lugares e atitudes... isso é cômodo e, em certa medida, covarde. Não generalize ou julgue uma pequena parcela pelo todo. O mais espantoso é: a pessoa dona dessa frase não é daqui, mas fez questão de povoar a capital federal com alguns dos 'ratos' e ladrões aos quais ela se referiu.

Eis uma homegem à Ilha de Niemeyer e Lucio Costa. Um texto sobre Brasília, terra com ingrata sina, mas repleta de boas pessoas, gente de bem que trabalha honestamente e também sonha com o clichê ou jargão de um país mais justo e melhor. Utopia, matá-la ou nutrí-la?

X Atos

I
Imagine um lugar sem beco
bem seco
como um Martine

II
Viva vitrine de perfeita geometria,
angular simetria,
imagine.

III
Projeto feito por mente de arquiteto
Com paterno afeto,
No ponto mais alto, no central planalto.

IV
Ah, esse Oscar
De fato um Oscar
merecia... usou toda sua mestria
naquilo que ousou criar.

V
Não, não há nada de errado com sua ilha.
por quem sou fascinado,
ou melhor, sua filha,
por quem sou fascinado.
Brasília, legítima flor do cerrado.

VI
Aqui, Mar não se tem.
Porém, a onda ,
Da Piscina provém.

VII
Um mago o misticismo simboliza
pra quem acha que aqui se setoriza
o ostracismo do público funcionalismo.

VIII
Se não há Porto,
Nem Docas, nem gaivotas,
Temos brancas garças,
Um Lago e estilizadas praças.

IX
Quem não se enquadra
No quadrante da Super Quadra
Escolhe num cardápio entre opções
Como o Setor de Diversões
Ou uma de suas versões:
Gilberto Salomão.
Aqui ninguém fica na mão.




X
Ah, Brasília, teu corpo é perfeição.
Teu Eixo, Monumental.
Tu és um avião.
Tua Água Mineral.
Tua importância, visceral.
És musa, despertaste em mim a paixão.


Andarilho das Sombras - Copyright©1998
Fotos - Google.
Música: baixe aqui
contagem regressiva/
Download comum/
salvar no pc e ouvir. Divirtam-se!!

segunda-feira, 7 de março de 2011

: Sobre Renascimento - Teçam-se Auroras

Há um famoso poema de João Cabral de Melo Neto no qual ele constrói belíssimas metáforas sobre o Renascer - Tecendo a Manhã é o nome do texto. Segue um fragmento:
Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito de um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

(João Cabral de Mello Neto).

Em um Claro intertexto surgiram os Teares da Aurora. Espero que apreciem. Renasça pois nas almas e corações a esperança : Filha da Quimera e do Real poder de realização armazenado em cada um. Salve, Salve meus caros. Girem as pás dos pós-modernos moinhos quixotescos para que os contemporâneos Quixotes brilhem nos [...]

Teares da Aurora

Coração de beija-flor.
Alma leve
Rascunhada em areia,
em nuvem desenhada.
Pensamentos lindos
líricos,
oníricos,
limpos
de todo e qualquer drama

imbuídos,
revestidos
d’uma suave transparência
e sua límpida trama
Cosida em subliminares
fios de seda
da esperança na existência
ou existência da esperança.
Certeza d’um futuro
O qual já vigora,
Revigora
um presente
cujo olhar
pressente,
enxerga
o agora
na pausa
do porém,
do outrora
na justa causa da essência
:logo ali além
: nos teares da aurora.





Andarilho das Som
bras - Copyright©2010

*Música sugerida: Birds - Emiliana Torrini
Basta clicar no link azul e depois em ouvir.
Divirtam-se!

sábado, 5 de março de 2011

: Sobre as Filigranas da Alma

Vez por outra se faz necessário observar as filigranas da alma cuja impressão será feita na memória ao longo do viver. Algumas dessas marcas d'água serão irrefutáveis provas de evolução. Outras, claros sinais de estagnação. Eis o viver - complexo estágio no qual se aprende por dois modos
: pela dor ou pelo amor. Cabe a cada um usar a sabedoria para que o segundo prevaleça sobre a primeira.

Filigranas


Andar com leveza
por entre as filigranas
de angústia
e silêncio
não é tarefa simples.

Um cheiro
ardido
de coisa que queimou
e não se regenera
invade o ar
e, ainda assim, não o polui.

Andarilho
ou
ermitão
cuja caminhada
ousar
ultrapassar a tênue
fronteira
entre
o sonho
e
o palpável
é um kamikaze
a ganhar guerras
sem
deflagrar
sequer um golpe.

Andarilho das Sombras - Copyright©2010

* Sugiro uma trilha para a leitura desta postagem: clique aqui
escolha a opção download comum/ espere a contagem regressiva e baixe a música. Divirta-se!!

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